Tenho pena que, desde o início, eu sinta que não é normal falarmos como amigos. Já falámos de várias coisas importantes, já falámos de nós e já falámos da eutanásia, da pena de morte e depois de tudo isso, eu não sei perguntar-te como é que estás.
Fazes-me falta, ou talvez me faça falta uma versão de ti que eu nem nunca conheci. Às vezes sinto isso; sinto medo de te ter imaginado melhor do que tu és de verdade. Há dias em que não percebo nada, não sei porque é que os meus olhos param em ti ainda. Falas alto, não és capaz de esconder a tua solidão, és mau e injusto. Mas depois alguém diz qualquer coisa, e tu levantas-te, e tens os olhos a brilhar e a voz sai-te segura, e és inteligente, como eu, e ris-te das mesmas coisas que eu e por muito que eu queira, é difícil não nos querermos agarrar a alguém assim. E nessas alturas eu sei que, ainda que continue a ser possível que eu te imagine bom demais, tu és bom mesmo na vida real. Tens defeitos brutos e feios, mas se me perguntasses, eu saber-te-ia dizer exatamente o que gosto em ti.
Agora magoas-me. Não sei se te apercebes, se fazes de propósito, mas eu acho que não. Acho que já te sou indiferente e por isso tu nem queres saber. Mas dói-me e magoas-me. Elas são todas muito mais bonitas do que eu, e tu elogias-lhes os olhos e o cabelo e o sorriso e o que dói mais é que eu já devia estar a milhas de ti. Devia rir-me quando te vejo expressar o teu desespero por companhia dessa forma. E depois também dói eu não ter razão nenhuma em sentir isto, porque a verdade é que desde ti, eu já estive com outras pessoas, e não foi a elogiar-lhes o sorriso.
Sinto a tua falta mas não é como se quisesse estar contigo outra vez. E talvez eu seja ainda mais egoísta do que tu. O que eu queria era só falar contigo. Sobre o que tu quisesses. Não me parece certo não podermos falar como amigos a sério, que querem saber um do outro e que mandam mensagens a perguntar qual era o trabalho de casa de inglês. É que eu preocupo-me contigo. Quando eu te pergunto se estás bem, eu quero uma resposta sincera, mesmo que seja complicada e seja preciso tempo para te ouvir até ao fim. E sei que tu quando me perguntas se se passa alguma coisa comigo, o fazes com a mesma preocupação.
E no fundo, isto só é difícil porque não me faz sentido chorar à noite por me sentir sozinha quando sei que tu existes e que ias perceber tudo o que eu não sei partilhar com mais ninguém. Não me parece certo ver-te passar e fingir que não te vejo. Não sei como é que me dou ao luxo de aumentar a minha solidão assim como quem não quer a coisa, como se não fosse importante, como se eu não fosse mais feliz se te tivesse perto de mim de qualquer maneira.
Mas no último dia em que vamos estar juntos naquela escola feia, porque agora não temos outra coisa que nos faça estar no mesmo sítio ao mesmo tempo, eu vou-me sentar ao teu lado e vou dizer-te isto que disse aqui hoje, ou uma coisa parecida. Não me vou embora calada porque não tenho medo de dizer o que sinto. E porque sei que tu me vais entender.
Não deixes esperar até ao último dia... Aproveita agora, enquanto algo ainda pode mudar para melhor por serem capazes de reconhecer que conseguem ser mais do que têm sido. Não adies, pois muita coisa pode ainda acontecer se decidires mudar as coisas agora :) Força, miúda :)
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