Tu és o velho e ele é o novo. É por isso que te escrevo a ti e não a ele, é por isso que tu ainda és o «tu» desta carta. As raízes tuas que moram em mim são fundas e não as consigo arrancar porque quando o tento fazer dói-me muito. Reconheço o teu cheiro no ar e é como se chegasse a casa, porque sei de cor o toque da tua pele, as linhas das tuas mãos, como se a minha alma encaixasse na tua, como se eu tivesse nascido em ti. És natural em mim, corres-me nas veias como rios finos de água gelada e dura. Por mais relógios que estejam pendurados nas paredes e por mais horas que nos separem e por mais mentiras que as nossas bocas tenham prometido um ao outro, não sei como fazer para te perder de mim. Continuas igual em mim, sinto-te por baixo da minha pele como se fosses de cimento, és uma estátua que me ocupa o coração, e se fosses uma estátua maior, eu rasgava o meu coração para te dar o espaço que precisasses. Eu sei bem que a maior verdade é que eu não quero que te vás embora, que faço força para manter a tua memória tão verdadeira quanto me for possível.
Durante o dia não faz mal. Mas no princípio da noite, se já não te tenho comigo, vou para onde? Durmo com a cabeça encostada ao peito de quem, sonho com que estrelas, de que parte do mundo? Ainda és o velho, e ele é só o novo. Gosto tanto mais dele do que de ti. Mas e então? Tu és eu, moras em mim, consomes-me vida e amor, sorris-me e eu perco-me tão depressa nos cantos da tua boca, e depois achas que quero voltar sozinha para as estradas frias e negras da madrugada? Abraças-me os medos e beijas-me as feridas e lambes-me as lágrimas, e sou tão segura, tão forte e tão criança ao mesmo tempo quando te amo. Fazes-me sofrer e obrigas o meu coração estúpido a encolher-se, e se não fosse assim acho que nem sequer sabia já respirar. Queimas-me e fortaleces-me e ardes em mim como chamas azuis de um fogo que escalda. És a parte mais forte dos meus ossos. E ele, bem ele é novo, cheira bem, a perfume e a ruas de cidade, mas ele não é a minha casa.

Se nunca to disse, digo-te agora: escreves lindamente bem!!! Adoro a tua escrita.
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