
Sabes que é difícil quando chegas ao princípio da noite sem sono mas com vontade de dormir até ao verão. Quando o sangue que te corre nas veias parece mais espesso, como se custasse a passar. Quando as piadas dos teus amigos deixam de ter graça e sentes o teu riso forçado arranhar-te a garganta. Quando te encostas à parede e tens que retomar o fôlego, porque por momentos te esqueceste de como se respira.
Sabes que é difícil quando sentes o toque fugaz do passado e não podes largar tudo e correr para ele, porque baterias com o nariz na porta. Quando as paredes da escola te são familiares mas não te deixam confortável. Quando dás voltas à vida e ao tempo e a todas as tuas possibilidades e quando chegas a casa vês que ainda vives no mesmo sítio. Quando és nova demais para pensar tanto em coisas que não adiantam. Quando te dói o peito num aperto amargo, e não sabes se é amor, se é ódio, ou se é só a vida a dar sinais de si. Quando fechas os olhos mas continuas a ver tudo o que te assombra, todos os traços do rosto dele a rir-se de ti. Quando te ouves falar e percebes que nem sabes bem o que estás a dizer, e que as certezas que julgavas ter afinal nem fazem sentido. Quando as palavras te fogem da boca, e as lágrimas te fogem dos olhos, e o corpo treme e te pede baixinho para desistires. Quando te cansas das linhas dos livros que gostavas de ler e dos acordes de uma das tuas músicas preferidas. Quando uma coisa é a tua vida e outra coisa és tu, e quando parece que essas duas coisas nunca se encontram. Quando olhas para ele e compreendes que ele já não te ama, já nem sequer gosta do teu sorriso mais do que do das outras, e mesmo assim, o teu coração faz de tudo para se esquecer disso durante a noite.
É difícil porque queres que pare de doer e que pare de chover em cima de ti, mas não queres morrer. Porque todos falam e todos dizem que sabem e na verdade não há regras aqui, e isto não é um jogo. Não é uma metáfora. É a realidade e a realidade é que se te sentes mal e choras, não há anjos que te salvem, nem mesmo aqueles que um dia te prometeram que sim. É por isso que tanto podes amá-lo para sempre, como amanhã acordares e não te lembrares do nome dele nunca mais.
É difícil porque és mais forte do que gostarias de ser. Porque não és uma flor abandonada na estrada, à espera de ser pisada por um camião ou levada pelo vento para uma cidade bonita. Porque aguentas milhares e milhares de mágoas, e de desilusões, e de buracos no coração, e de bolhas nos pés, e de lágrimas de sal e amor, e de medos e de erros. Aguentas, dói, mas não podes simplesmente desistir de sentir. Não podes. Não podes deixar de aguentar só porque dói, e é por isso que às vezes é muito difícil, porque acima de tudo, foste feita para ser forte.
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