
Caminha-se por entre as salas, fingimos que não sabemos que estamos sozinhos. Sorri-se a quem passa ou finge-se não saber sorrir. Há palavras que são soltas e escutadas pelas paredes frias e por mais ninguém. São raras as vezes em que há mais alguém. E mesmo assim, os segredos voam de boca em boca, e rimos e choramos juntos como se tivessem alguma importância.
Porque agora o verão está já muito longe de nós. As cartas de amor que não foram queimadas no primeiro dia de chuva, ficarão adormecidas até para o ano.
E caminha-se, por entre as salas, como se soubéssemos o caminho. Convencem-nos de que o sítio onde ele nos leva vale a pena. Acreditamos nisso às vezes, mas nem sempre. Nenhum de nós é nada sempre. Nenhum de nós faz promessas com intenção de as cumprir. Acendem-se isqueiros e apagam-se cigarros sem nunca se ter a certeza de nada. Perdemos a esperança algures por entre as letras do nosso nome e os cabelos molhados. E dizem por aí que não neva, mas não é verdade. Não é verdade que não podemos sair daqui. Podemos, claro que podemos. Mas nunca o faremos. Proclama-se a liberdade, mas no fim ninguém a quer. Não sabemos o que fazer com ela. E nos dias mais envelhecidos, diz-se por aí que nenhum de nós sabe nada de nada.
Mas sei que isso não é verdade. Sei que há países onde o sol se deita mais tarde, e em que a chuva não é tão afiada. Sei que tenho medo, e que todos temos medo, e sei que ninguém o confessa, mas todos o sabem. E que há mais para fazer aqui, além de temer o que virá?
Se nem as paredes frias nos sabem dizer em que dia vamos sair daqui? Se eles dizem que não somos nada, mas pedem-nos que sejamos tudo, mas que não tenhamos a certeza de nada, mas que façamos tudo com a certeza nas palavras. E no fim, que apaguemos os cigarros com cuidado e vamos para casa, como se não soubéssemos que somos infelizes.
Que bonito texto! Não é só bonito como também transmite muito...
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