2014/10/13

Deixa as Palavras Voarem | Céu

Quando era mais nova, eu acreditava num céu que me acalmava e deixava feliz. Era um céu lilás e azulado, com nuvens que seriam o meu chão quando morresse. Eu olhava para cima e pensava que, se um dia fosse para lá viver, nunca mais poderia ser infeliz.
E depois cresci, e disseram-me que não. Que não era um céu com nuvens e aviões. Era um céu com o perdão, a bondade, e Jesus. Fui para a catequese. Tentei ser amiga de Jesus, como me diziam para fazer. Mas ele não falava comigo. Alguns meninos conseguiam ser amigos dele, mas eu não. Jesus não me fazia sentido.
E agora, cresci mais um pouco, e não há céu nenhum. Há o céu que estudo nas aulas de geografia, com os seus centros barométricos e formas de precipitação. Há o céu de verão, sob o qual fazemos promessas que não cumprimos. Há o céu que observo durante as aulas, quando só quero ir para casa.
Mas não há nuvens que me salvem. Não há um Jesus que fale comigo. Não há anjos, nem o perdão de nada.
E ainda assim, de todas as vezes que olho para o céu, o que eu sinto é esperança. O céu ainda é a minha última hipótese de sair daqui, um dia, para nunca mais voltar. O céu também já me fez promessas que não cumpriu. E já me senti zangada por isso. Já olhei para cima com lágrimas quentes nos olhos, e disse que ia desistir.
Mas as nuvens flutuam, lá no alto, e o sol ora surge ora se esconde, e os pássaros voam com o vento, e o céu sussura-me ao ouvido: « Espera só mais um pouco.»
E eu espero. Espero, porque acredito nele. E penso que acreditarei nele para sempre.

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