
«Voltei lá sozinha, no final desse ano. Prometi-lhes que não me demoraria. No entanto, ainda antes de lá chegar, sabia que aquela seria a minha última paragem.
É incrível como há o que se altera e o que se mantém. Como a água do lago tinha o mesmo tom de azul de todos os outonos passados, um tom de azul que promete sonhos aos mais pobres e asas aos mais fracos, que o sol ilumina e torna perolizado. Contei catorze cisnes, que deslizavam sobre o manto calmo de águas pesadas, com os queixos seguros lá no alto, mais seguros do que os de qualquer ser humano. Como se o mundo lhes pertencesse. Depois olhei em volta, e percebi que pertencia. Era muito mais deles do que meu. O sol brilhava entre as penas das suas asas, incitando-os a levantar voo, mas eles deixavam-se ficar. E eu também ficaria, se pudesse.
Instalou-se-me o silêncio a um canto da garganta. As árvores pediam-me segredos, mas eu não os tinha. Não desta vez. Ele já morrera, e elas sabiam-no. E às vezes, por isso, agitavam as folhas ao de leve, para me prometer a companhia do seu fantasma. E eu via os dentes de leão desvanecerem-se no sopro do vento, e a rapidez com que se tornavam em coisa nenhuma, numa mentira que ninguém se lembra de contar. E ele era igual. Coisa nenhuma. Lindo como uma flor morta, mas morto. E os mortos não falam, não ouvem, não veem, e a alma dele, eu senti-a o mais longe de mim possível.
Senti o cheiro da morte beijar-me os ombros e acendi um fósforo. Porque o fogo era vivo, e eu estava viva, e precisava de um pedaço vida a arder-me nas mãos. Mas o tempo lançou-se sobre mim e apagou a chama. De novo, coisa nenhuma. E ele, ainda coisa nenhuma, mais do que estar morto, já sem ver, sem falar, sem ouvir, sem amar, sem comer e sem dormir, matava-me também com as labaredas frias da sua própria morte. E o vento soprou por baixo da minha pele, e soltou-se um dente-de-leão, e lá estava eu, perdida nos restos de mim, restos de coisa nenhuma.»
Gostava tanto de saber escrever pá! É que não consigo apanhar-lhe jeito de maneira nenhuma, leio sempre que posso vou escrevendo e lendo aqui na blogosfera e nada!!
ResponderEliminarr: obrigada :D
ResponderEliminarEscreves tão bem!
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