2014/09/23

23 de Setembro

Gabriela Rodrigues | via Facebook 

Acordei cedo demais. 
Não consigo perceber ainda se o que sinto é revolta ou desalento. Sei só que não estou feliz, hoje. Sei que continuo sem saber o que quero para mim, mas sei o que não quero. E nas próximas horas, isso vai ter que me chegar. 
As caras deles rodopiam à minha volta. Quem me dera não conhecer metade delas. Quem me dera saber quantos dias até poder sair daqui. As árvores da avenida começam a despir-se para o inverno, enquanto me sussuram baixinho que nunca o farei, e eu odeio-as porque me prendem, e amo-as porque são a minha casa.
O Ç manda-me mensagem. Não respondo. Não quero, não quero. Sei, no entanto, que me vou arrepender em breve. Quando ele parar de insistir. Mas também sei que nada dura para sempre. Nem a amizade, nem a dor, nem o arrependimento.
E há medida que o dia vai perdendo a sua força, vem-me o passado à mente, e desta vez eu deixo-o ficar. É engraçado como, depois de ter soltado aqueles últimos pedaços de verão, eles voltam para mim, serenos, e sinto o sol de lá longe brilhar aqui, por entre a chuva.
Acaba a manhã. Não sei onde quero almoçar. Mas acabo por ir para o sítio habitual. Com as pessoas habituais. O S vai ficar sem mim, já faltou mais,digo-lhe isso, e ele olha para mim e ri-se, e eu sei que ele vai sentir a minha falta quando eu decidir que estou exausta de tudo isto. O N está à minha frente, e eu não consigo evitá-lo. Desprezo-o. Não gosto dele. Irrita-me o riso dele, a voz, o que ele diz sem pensar. Mas agora é um ódio passivo, que não me toma o coração, e por isso consigo olhar para ele e aperceber-me do quão feio ele é, e quase ter vontade de rir.
Estou no café, e o tempo passa devagar. A chuva é cinzenta, o céu é cinzento, a minha camisola é cinzenta, os olhos do N são cinzentos, a tinta das paredes está a lascar, e é cinzenta. É quase ridícula a capacidade que tinta lascada tem de me deprimir. É ridículo tudo isto. Quero dizer, quão cinzento pode ser um dia?
E por entre as folhas cinzentas que caem pelo caminho de volta para a escola, sou assaltada por vagas de indiferença, que me assustam mais do que a revolta e o desalento. Não quero saber disto. Não me importo de chorar sempre que quiser. Não me importo de me ir embora e perdê-los a todos, não me importa saber que nenhum deles me ama. Eu sei que não os amo. Eu sei que hão-de vir mil outros dias cinzentos. Sei que tudo o que aconteceu há uns meses já não me pertence. Sei que sinto a falta de tudo isso. Mas não me importo. Hoje é um dia cinzento. Posso fazer esperar o tempo.

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