2014/02/11

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«Vai  ser sempre assim, não vai? Vai haver sempre uma pessoa,uma palavra ou um gesto capazes de fazer o tempo parar e de te transportar silenciosamente para uma realidade paralela. E depois? Depois é sempre a mesma coisa. Deixas de saber até que ponto estás viva, e confundes a vida com a morte. Qual te parece melhor? Não sei, juro por deus que não sei. Dizem que a vida é um milagre, que é tudo o que temos de bom, mas é assim porque sim, e em criança disseram-me que «porque sim» não é resposta. Então, há mais alguma coisa para além disto? Existe mesmo, mesmo, alguma razão para, todos os dias escolhermos viver, ou é só ficção? Digam-me por favor, mas digam-me porque vocês o fazem, e não porque eles dizem que é bom. Acho que, no fundo, todos sabemos que ao escolhermos viver, escolhemos sofrer eterna e irremediavelmente, e penso também que só o fazemos porque não temos coragem de nos matarmos.
 Não temos coragem, e isso é o mais triste de tudo.
 E eu, que choro quando não há nuvens e choro quando as há, tudo o que posso dizer é que não sei. Eu penso algumas coisas, coisas que posso jurar que nunca ninguém entenderia, e tu também o deves fazer. Ou não? És feliz? Porque é que dizes que finges sorrisos para esconder a tristeza? Não vês que ninguém quer saber se estás bem ou mal? Ainda não reparaste que o mundo não pára nem por nada, nem por mim, nem por ti, e que o que queres que faças, não importa? Porque é que nos convencemos de que temos importância para alguém? Todos nascemos, todos morremos, e vamos sozinhos. Não importa o que fazes, o que dizes ou o que julgas saber.
Já perdi mais do que ganhei. E tudo o que perdi, nunca foi realmente meu. Nada é realmente nosso, nunca.
 Então, posso-te perguntar outra vez? És feliz? Não me digas que a felicidade não é um sentimento pleno, mas que se encontra nas pequenas coisas da vida. Essas pequenas coisas, valem de alguma coisa? Fazem de ti uma pessoa menos miserável do que eu? Eu acho que não, mas como não sei nada de nada, não o posso afirmar.
Uma última coisa: nunca acreditam em mim quando o digo, mas ouve quando te digo que é mais fácil viver em constante tristeza, do que na procura pela felicidade. A queda é menor, e, eventualmente, o corpo e o coração acabam por se habituar à tristeza. E um dia, sem te aperceberes, ela tornou-se parte de ti.
Até lá, vou chorando, e quando as lágrimas se vão embora, chamo-as de volta. Não as quero longe de mim. Quero que o meu coração se habitue à sua presença. 
Não quero que ele pense que tem o direito de ser feliz.»

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